Conto: Melodia & Harmonia

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Ahhh, hoje eu vim trazendo um conto que escrevi há um tempão. Ele é super curtinho e me inspirou a escrever uma história longa. Mas como eu tenho medo de tentar alongar esse e acabar estragando, achei melhor colocar aqui.

O conto é inspirado na obra da Rachel Vincent, o conto Farra do livro Imortal - Histórias de Amor Eterno, e na série Soulscreamer, da mesma autora.


Conto: Melodia & Harmonia


Aria estava viva há muitos anos, tantos que era fácil perder a conta das décadas, errar na moda ou ficar para trás nas tendências tecnológicas. Havia muito ela perdera a noção do tempo, não existia longo demais, curto demais. Só existia o agora, pintado com cores vibrantes e quentes, com sons que arrepiavam a sua alma e faziam os ossos tremerem.

A capacidade humana de se desenvolver, evoluir e regredir não mais a encantava. Poucas coisas conseguiam a surpreender, poucas pessoas.

Aria estava viva há muito tempo e ao longo de todos os anos e segundos que começavam a pesar em sua alma, a única coisa capaz de surpreende-la era o talento humano. Fosse ele bruto ou já tocado por alguém como ela. O talento humano podia alimentá-la por dias e jogá-la em um mundo com sensações explosivas e refrescantes.

Uma parte sua ficava exultante com habilidade humana e outra se entristecia que ela mesma não pudesse reproduzi-la, que a vida humana fosse tão efêmera e levasse embora os talentos que encontrava mais rápido do que ela era capaz de se satisfazer.

Fora o talento que a levara até ali, na rua praticamente vazia em pleno centro da cidade, em frente ao teatro. Fazia frio na primeira noite de inverno, no meio de junho, e a calçada de pedras estava congelando seus pés e deixando os músculos rígidos. Mudara-se para o sul do país atrás de um talento e no meio do caminho fora incapaz de resistir a atração.

Correu pelo caminho iluminado e subiu os degraus claros até a porta de entrada, só para acha-la fechada. Podia sentir o rastro de calor que o talento bruto deixava por onde passava. Seguindo a trilha ela avançou até a lateral do prédio, passando pela porta aberta e desviando de um grupo de pessoas bem vestidas perto da porta. Suas mãos contornaram o corrimão de madeira, inclinando a cabeça para observar o teto ornado, deixando que a sensação calorosa a guiasse por dentro da construção.

Em uma das salas menores ela o encontrou, sobre o palco, massacrando as teclas de um gracioso piano de cauda negro. O som era bruto e trazia tristeza ao âmago de Aria. Ele estava iluminado pelo amarelado do canhão de luz e também estava sozinho.

O tapete vermelho se estendia pelo chão e as fileiras de cadeiras azuis se estendiam ao seu lado. Nas laterais, dois camarotes se projetavam, camuflando-se no tom creme das paredes e enfeitados com tinta dourada.

Fechou a porta as suas costas, mas o rapaz não abriu os olhos ou fez qualquer movimento que reconhecesse a presença dela. Ela se aproximou, o tapete áspero sobre os pés enquanto se colocava em frente ao palco, apoiando os cotovelos sobre ele e inclinando a cabeça sobre as mãos, absorvendo o ritmo doloroso, sem conseguir impedir que sua essência começasse a se espalhar.

O rapaz atrás do piano tinha a tez clara e os cabelos loiros, em um tom de areia que reluzia a luz dos canhões, exibindo maciez e convidando ao toque. Ele tinha a aparência típica daquela colônia alemã. A música parou subitamente e ele abriu os olhos, observando o nada. De onde estava, Aria podia ver grandes orbes de um azul claríssimo. Quando ele falou, ela também percebeu que ele não podia enxergar.

-- Quem está aí?

Sentiu seu poder flutuando em frente aos olhos, encontrando o seu caminho até a essência do talento dele.

-- Eu só queria ouvi-lo tocar. – respondeu simplesmente, se afastando do palco e caminhando até as escadas laterais. – Toque algo mais.

-- Desculpe, mas hoje não é um dia bom para a minha música. – em cima do palco, agora, ela notou como os dedos longos do músico mexiam-se nervosamente sobre as teclas de marfim.

-- Com o seu talento, todo dia é um bom dia. Toque mais uma música. Toque o sente na sua alma. – Aria se aproximou mais, tocando a madeira do piano com a ponta dos dedos, como se fosse quebrar. – Por favor.

O rapaz pareceu ponderar por um minuto, mas voltou a fechar os olhos e apertar as teclas. As notas dolorosas rapidamente se transformaram em melodia harmoniosa e a feição dele foi de consternada a confusa, enquanto tentava tirar algo que lhe agradasse do piano. Seus dedos deslizaram sobre as teclas e de repente era como se ele já conhecesse a música, como se já estivesse com ele desde muito tempo.

E na verdade já estava, ele só precisava de Aria para desperta-la.

Como a filha de Harmony, descendente direta de Euterpe, a antiga musa grega da música, há muito ela já aceitara sua condição como uma fada. Uma criatura mística que inspirava a criação em humanos especiais, assim como o que estava sentado no meio do palco, frustrado. Ela se alimentava da beleza de suas canções. Quanto mais ele tocasse, mais forte Aria ficaria.

Ele precisa do incentivo e da inspiração que ela emanava. E ela precisa de suas notas e canções para sobreviver aos dias como vinha fazendo desde que atingira a vida adulta.

A música saia naturalmente e o sorriso cresceu no rosto da fada. Aria caminhou até o centro do palco, em frente ao canhão de luz e abriu os braços. A melodia enchendo seu corpo, sua alma. Era como estar sendo completada aos poucos. Sentiu-se feliz e embriagada pela canção. Era mais bela do que ela havia sentido a princípio.

Ela riu para a luz e voltou a fechar os olhos. Dó, sol, mi, mi, fá... As notas iam se agrupando e formando a mais bela canção que Aria já havia inspirado. Ela pairava ao seu redor, cada nota rodopiando a sua volta e fazendo-a sorrir para a luz. A música tornou-se mais intensa e ela sentiu o corpo ser embalado por ela, sentiu os pés saírem do chão e bem podia estar flutuando. Estava inebriada, estava embriagada pelo poder da canção.

Quando o músico parou de tocar, Aria colocou os pés sobre o palco de madeira novamente. Estava extasiada, a respiração descompassada. O rapaz virou o rosto para ela com um sorriso grande e Aria caminhou suave e graciosa até ele, apoiando-se no grande piano de cauda negro.

-- O que você fez? - ele perguntou maravilhado. - Foi como se as notas me viessem mais claras. Como se soubessem por si só onde deveriam estar.

Aria apenas sorriu. Sua alma estava saciada e os ouvidos cheios com a canção. Era como estar em casa.

-- Elas sabiam, você só precisava escutar.




Geminiana brava, adora ler, adora tv e adora cinema. Apaixonada por personagens fictícios, pipoca e praia no inverno. Twilighter para sempre, Shadowhunter convicta com um sonho de se tornar a sassenach de alguém. Soberana de uma terra de sonhos, tem paixão por escrever e falar. Acima de tudo, gosta de falar do que gosta!

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